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Entrando no Armário

    Primeiramente, preciso me desculpar com vocês pelo atraso da atualização desta coluna. Acontece que, como sabemos na prática, o ano efetivamente começa depois do carnaval, e exatamente neste período eu aproveitei para organizar algumas coisas na minha vida - assuntos estes que acabaram demandando mais tempo do que eu havia programado.

    O lado bom é que no meio de toda essa turbulência de afazeres que me veio a idéia para este texto - e que nasceu mais especificamente por dois motivos. O primeiro era a organização da minha mudança de um apartamento para outro. E o segundo era uma enorme dor que eu estava sentindo no ombro fazia quase uma semana. A mudança tinha que ser rápida. E a dor no ombro? Sei lá, devia ser estresse. Sempre é estresse.

    Quem já fez mudança sabe que é uma organização muito cansativa, mas também um momento de limpeza - na casa e na gente. No pente-fino que vamos passando em cada coisinha, encontramos uma série de itens que a gente já pensava ter perdido (e também descobrimos que algumas deles nós realmente perdemos mesmo!). Então, passada aquela primeira meia hora, reunindo forças e imaginando por onde começar, tem início à arrumação - e depois de vários cômodos, chega enfim a vez do guarda-roupa. Que, pela primeira vez, me fez encarar esta mudança de uma forma diferente do que no resto da casa. Mais desafiadora. Mais pessoal.

    Primeiro, porque comecei a esvaziar as roupas - as do dia-a-dia, as de ocasiões especiais, as que guardam em si um carinho especial, etc. Todas essas que, através do estilo que foram feitas ou como são usadas nos dizem quem somos e, principalmente, quem queremos "ser" aos olhos dos outros: pessoas elegantes, comportadas, centradas, alternativas, rebeldes... Quanta informação passamos de nós, sem saber, em apenas uma roupa que usamos!

    Mas o surpreendente ao arrumar um armário não está nos objetos de uso diário, expostos, à mão, mas sim no que escondemos lá no fundo, e só reencontramos nesses momentos de "faxina". São as roupas que temos e não usamos, por que estão esperando que a gente emagreça, ou estão separadas para uma ocasião especial que nem sabemos qual é - mas que não podemos "gastá-las" até lá!!! São acessórios que compramos num frenesi de liquidação, mas que não tem absolutamente nada a ver conosco... Coisas que compramos sei lá por que, mas que guardamos pois podemos precisar um dia... Presentes que ganhamos e detestamos, mas não tivemos coragem de trocar ou jogar fora. E, sobretudo, peças que já usamos e adoramos, e nos lembram uma ocasião muito especial - mas que hoje não tem nenhuma finalidade que não seja a de souvenir.

    E assim nos vemos sentados em frente a um armário vazio e cara a cara com um passado e um presente bem demarcados: o primeiro, escrito em várias recordações espelhadas em cada peça-chave de um momento especial da nossa vida. E o segundo, mais sutil e ao mesmo tempo arrebatador, está declarado num verdadeiro raio-x de nós mesmos, retratado através de objetos espalhados, expostos, descarados, mostrando um monte de sentenças acerca de nós, do nosso dia-a-dia, das tantas coisas que escondemos lá no fundo do armário para não vermos, para ninguém ver, para não atrapalhar, ou para simplesmente "resolver outra hora"! Podemos nos descobrir uma pessoa compulsiva por compras que hoje, arrumando o quarto, nos sentimos vazias, porque aquelas roupas nunca foram usados e nunca trouxeram em si algo marcante... Podemos nos reconhecer pessoas insatisfeitas conoscos, porque temos uma série de roupas que não usamos porque estamos sempre à espera de que alguma coisa aconteça (que a gente emagreça, que a festa chegue, que o namoro vingue, que o emprego apareça) e que hoje não nos sentimos suficiente "bons" para nos aceitarmos bonitos e especiais do jeito que a gente é...

    Esse súbito 'auto-"re"conhecimento' também nos mostra alguns caminhos que tomamos sem querer. Minha última arrumação realmente "severa" de armário, por exemplo, foi há uns 4 anos atrás. Eu tinha acabado de atravessar um momento bem complicado na minha vida, e poucos dias depois fui receber uma visita de uma amiga muito querida em casa. Ao me arrumar para sair com ela, me assusto subitamente com o meu próprio armário: repleto de roupas, porém todas beges, cinzas, cremes e outras variações pastéis e apáticas dessas cores - insossas, pálidas, sem vida e sem a energia de uma cor vibrante. Exatamente da mesma forma como eu estava me sentindo - e como não sou uma das seletas pessoas financeiramente privilegiadas que podem montar um armário completo de uma vez só, naquele momento me surpreendi ao constatar como já havia tempo em que eu tinha deixado minha vida chegar aquele ponto. Como, independente do motivo, apaguei o meu brilho, sem perceber - e fiz isso sozinha.

    Mas a sabedoria da vida também rege a dinâmica das mudanças de armário. Ou seja, depois de esvaziar um armário temos que colocar tudo de novo numa mala para transportar, que invariavelmente é pequena em relação à montanha de coisas que a gente guarda - o que nos obriga a fazer escolhas. Só que, retirados os excessos que a gente sempre guarda, a "faxina" muitas vezes não chega às peças tão difíceis de se desfazer (vai que um dia a gente precisa?). Mas nesse momento eu descubro a real razão da minha dor no ombro: carregar bolsa pesada, o dia todo e todo dia, cheia de itens "indispensáveis". Virei uma mulher preparada, precavida - e dolorida!

    E concluo (outra surpresa!) que o armário nos levou a fazer escolhas, que exigem por si só renúncias, e que exigem - porque não? - coragem. Coragem em assumir riscos e "dar nosso jeito" ao optar pelo "leve" ao invés do "indispensável", deixando de carregar tanta coisa mais por apego e excesso de precaução do que por necessidade. Coragem de nos aceitar como nós somos ao nos desfazer de roupas que sonhávamos voltar a usar quando emagrecer - mas sabendo que quando emagrecermos vamos comemorar e comprar uma nova, mais bonita ainda! Coragem de assumir que os melhores souvenirs estão na nossa mente, nos nossos olhos e sorrisos, e poder se desfazer de lembrancinhas físicas que acumulam poeira e desbotam com o tempo. E coragem sobretudo de saber que quem é parte da sua vida é você e não as coisas que você guarda no seu armário - e que, portanto, você pode seguir o seu caminho e deixar suas coisas antigas seguirem os delas.

    Moral (ou "morais") da história: levei horas arrumando meu armário - e me surpreendi aprendendo em cada segundo delas. Me desfiz de muita coisa. Tomei várias decisões (entre elas, a de que não permito que nada mais seja "bege" na minha vida). Esvaziei minha bolsa. Procurei um fisioterapeuta (porque o ombro ainda não melhorou). E, se assim posso dizer, saí do armário literalmente, só que mais leve, mais em sintonia com meu momento de agora - e pronta para encarar um armário novo, vazio e arejado, cheio de espaço para abrigar coisas novas.


Clarissa Nazareth
reticencias@minutodesabedoria.com.br
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