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Folha em branco

    Bom, acho que vocês perceberam que eu gosto de escrever. Pois é, gosto mesmo. Acho uma terapia gostosa, relaxante, quase um hobby, em que vamos dando forma às mil coisas que passam na nossa cabeça. Mas se tem uma coisa que mais me "bloqueia" nessa hora é ficar frente a frente com uma folha de papel em branco.

    Uma folha em branco tem um quê de espera, de intimidação e de início. Primeiro, porque ela fica ali, com aquela "alvura" impecável, serena, quase pura, só à espera que a gente comece a transbordar nela os rabiscos da imensidão das nossas idéias. Portanto, é intimidante: nos sentimos cobrados pois, já que vamos interromper o paz muda daquele branco com a nossa caneta indiscreta, que seja logo de cara com uma idéia boa! E talvez por esse motivo é tão difícil começar um texto. Porque o início tem que ser bacana, corajoso, instigante. Tem que ser tão bom quanto o meio ou o final. E, principalmente, tem que vencer a barreira exigente do papel em branco, para que esse início seja a "locomotiva" eficiente do texto, percorrendo toda folha e chegar ao final íntegro, sem rasuras e sem se tornar mais um rascunho amassado na nossa lixeira.

    Quem não ficou parado na frente de um e-mail delicado, um trabalho de redação ou uma carta importante, só olhando para aquela folha branca e esperando as idéias chegarem? E, muitas vezes, com todo o meio e final montado na cabeça - mas cadê que sai alguma coisa? É bem verdade que o computador tornou tudo mais fácil (e a tecla "Del" é uma mão na roda). Mas aí a gente abre o Word e o branco tá lá, esperando passivamente para ver o que vamos fazer com ele.

    Ás vezes parece que acontece a mesma coisa com os nossos planos. Vamos fazendo uma série de projetos de vida, muito bem delineados, organizados, com objetivos traçados e prazos estipulados - mas tudo num futuro abstrato. Sabemos exatamente como queremos que o objetivo acabe, mas o primeiro passo para ir em direção dele parece embaçado, difícil de decidir e, geralmente, parece "simples demais" para ser realmente efetivo e arrebatador - nem de longe é a atitude imponente que nós idealizamos para guiar os nossos sonhos.

    Então a gente fica ali, naquela passividade, esperando que o céu mande o início perfeito, como se fosse para a gente simplesmente "psicografar" na folha em branco da nossa vida. Esperamos, intimidados, por um início que nem sempre vem. 1 ponto para o branco, zero para nós.

     Bom, algumas boas notícias então: não existe início ideal. Para começar, basta isso mesmo - começar. Uma redação começa com uma linha - e um projeto de vida começa com uma única atitude. O segundo passo é sempre mais fácil que o primeiro, e o terceiro mais fácil que o segundo, e por aí vai. É a pequenez e simplicidade das pequenas coisas que constroem grandes mudanças. Não temos "tecla del" nem folhas extras de rascunho em tudo na vida, o que torna o tempo um bem valioso que pode ser muito mais bem utilizado quando não ficamos "esperando". E principalmente, mais importante que o início, são as idéias e paixões que imprimimos em cada letra da nossa existência.


Clarissa Nazareth
reticencias@minutodesabedoria.com.br
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